a frágil substância do orvalho

 
 
Apercebo-me pouco a pouco de que as palavras não são suficientes para conjugar os sonhos com o desejo. Há sempre muito mais nesta tentativa de ocultar a timidez nos abstractos instrumentos da melancolia.
 
A solidão, apesar de lúcida, não deixa de ser opaca. Há muito que lhe adivinho os gestos e, neles, a exacta germinação da tristeza. O cansaço, por outro lado, tornou-se indissociável da singular cavalgada da indiferença. Do abandono.
 
Refugio-me na subjectividade de um passado que apenas na memória se conserva. Já não tenho como recuperá-lo e, no entanto, é através dele que me mantenho atento à vertiginosa confusão dos relógios, mesmo sabendo que o silêncio deixou de acariciar a inconfundível substância do orvalho.
 
...
 
Junnuz!...
 
 
Encontro-te quase sempre nos equívocos parágrafos do vazio, entre a memória da utopia e a singular periferia das palavras em que tento adivinhar o teu sorriso.
 
Às vezes, quando te aproximas da translúcida imagem da melancolia e te demoras na confluência dos espelhos, refugio-me na secreta masturbação do silêncio, como se o teu corpo, na inocente erupção do desejo, se aconchegasse na impaciente substância dos meus sonhos.
 
Muito poderia ser dito sobre a brevíssima espessura da alegria e a curiosa geometria da ternura que me aproximam dos flancos da solidão, mas não sei como atingir as minúsculas luzes do crepúsculo, ou a improvável representação dessa claridade que apenas nos meus olhos se reflecte.
 
Prossigo, então, em inútil caminhada rumo à saudade daqueles gestos que nunca me atrevi a desenhar.
 
 
driftin'
 

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